Crimes raciais crescem nos EUA após eleição de Obama, diz jornal

18/11/2008 01:11

 

A vitória de Barack Obama como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos empolgou analistas que apontaram um novo nível das relações inter-raciais no país. Mas a chegada do democrata na Casa Branca trouxe também um aumento nos crimes de motivação racial, informa reportagem do jornal "Daily Telegraph".

Desde cruzes queimando a alunos gritando "assassinem Obama", passando por bonecos negros enforcados em árvores, houve centenas de incidentes ligados ao preconceito racial desde a eleição de 4 de novembro. Muito além do "normal", disse Mark Potok, diretor do Intelligence Project, do Southern Poverty Law Center, que monitora crimes raciais.

Leia a íntegra, em inglês

Jae C. Hong/AP
President-elect Barack Obama, left, kisses his wife Michelle Obama after addressing supporters at the election night rally in Chicago, Tuesday, Nov. 4, 2008. (AP Photo/Jae C. Hong)
Obama beija a mulher, Michelle; eles serão a primeira família negra na Casa Branca

Potok disse ao jornal que a subida de Obama de um desconhecido senador por Illinois até o presidente do país deixou "uma grande parcela de brancos no país que sentem que estão perdendo tudo que conhecem, que o país que os fundadores criaram foi, de alguma forma, roubado".

E a reação, da Califórnia, na costa oeste, a Maine, na costa leste, foi uma série de crimes raciais que envolvem vandalismo, ameaças vazias e dois jovens neonazistas acusados de planejar o assassinato de Obama e de outras 88 pessoas negras.

Um destes casos, relata o jornal, foi em Snellville, Geórgia, onde Denene Millner disse que, no dia após a eleição, um garoto no ônibus da escola disse a sua filha de 9 anos que esperava que alguém matasse Obama.

Na noite do mesmo dia, alguém revirou o lixo na frente da casa de sua irmã, arrancou todas as placas de apoio a Obama e deixou duas caixas de pizza com fezes.

"Isso definitivamente faz com que você olhe de uma forma diferente para as pessoas com quem você vive e faz você pensar do que eles são capazes e o que eles estão realmente pensando", disse Millner.

A mudança --lema central da campanha do democrata-- nunca é aceita facilmente ou de maneira unânime. Para William Ferris, do Centro para Estudo do sul da América, da Universidade da Carolina do Norte, um presidente negro é "a mais profunda mudança no campo da raça que o país vivenciou desde a Guerra Civil".

A guerra civil americana ocorreu de 1861 a 1865 e dividiu o norte --da burguesia industrial-- que não aceitava a extensão da escravidão para as novas terras do Oeste americano, e o sul --da aristocracia-- que desejava a manutenção da escravidão.

AP
Daniel Cowart, acusado de planejar morte de Barack Obama, aparece em foto na internet
Daniel Cowart, acusado de planejar morte de Barack Obama, aparece em foto na internet

"Abala as fundações nas quais o país se firmou por séculos", disse Ferris. "Alguém disse uma vez que racismo é como câncer. Ele nunca é vencido completamente".

Mas se a vitória de Obama não ajudar os fundamentos da nação americana, que ainda carrega as marcas do segregacionismo, ao menos pode inspirar uma nova atitude.

No dia após a vitória esmagadora de Obama, a estudante do Ensino Médio, Barbara Tyler, de Marietta, Geórgia, disse ter ouvido comentários preconceituosos sobre Obama e que os professores não permitiram a discussão sobre o evento histórico para o país.

Tyler foi então à Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor e pediu uma assembléia para discutir a hostilidade e ressentimento locais --um ótimo exemplo da mudança que pode estar a caminho.

Veja outros incidentes que ocorreram desde a vitória de Obama

-Bonecos negros foram "enforcados" em árvores de Mount Desert Island, no Maine, segundo relata o "Bangor Daily News".

-Cruzes foram queimadas nos jardins das casas de apoiadores de Obama em Hardwick, Nova Jersey, e Apolacan Township, na Pensilvânia. O ato é um símbolo do grupo racista Ku Klux Klan, que, contudo, amenizou a vitória de Obama dizendo que ele é só metade negro.

-Na Universidade da Carolina do Sul, quatro alunos admitiram ter escrito comentários anti-Obama em um túnel destinado à livre expressão, incluindo um texto de linguagem ofensiva e que dizia que ele devia ser morto com um tiro na cabeça.

-Na escola de Ensino Médio em Covington, o diretor suspendeu um aluno por usar "parafernália política" --uma camiseta com a imagem de Obama--, no dia após a eleição do democrata. A mãe do aluno, Eshe Riviears, relatou ter ouvido do diretor: "Você gostando ou não, nós estamos no sul e há muitas pessoas que não estão felizes com esta decisão".

- Em Standish, Maine, uma placa dentro da loja Oak Hill dizia: "Aposta na morte de Osama Obama" pedindo aos consumidores que apostassem US$ 1 no dia em que ele seria morto. Na placa dizia ainda: "Esperemos que alguém ganhe".

-Na Universidade do Alabama, o professor Marsha L. Houston disse que um pôster da família de Obama foi arrancado da porta de seu escritório. No lugar, uma placa trazia ameaças de morte e linguagem ofensiva. "Parece que a eleição trouxe os ratos racistas de trás da parede", disse a professora.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u468560.shtml